(familia rosa reunida pra assistir o match de rugby franca X nova zelandia, na casa do jerome querido, com jantarzinho e MUITO vinho de varias regioes da franca)
quem nunca viveu num pais com invernos mais rigorosos do que o seu nao imagina o que sejam coisas como acordar sem luz do sol, ligar o aquecedor interno da casa, quebrar o leiometro do aquecedor como forma de protesto pra nao pagar mais, vestir um grosso manteau de peles falsas pra ir na padaria (ops, perdao, boulangerie) da esquina.
paris esfria. o humor das pessoas realmente muda. a mudanca climatica eh de fato uma grande novidade pra quem viveu 36 anos em eternos veroes completos. os franceses dao risada e me dizem que eu ainda nao vi nada, que o pior ainda esta por vir. eu, pessoalmente, to louca pra ver neve. eles me acham maluca. talvez eu seja mesmo.
continuo a descobrir este pais tao particular, dono de uma retorica tao rica e, paradoxalmente, de uma opacidade de comunicacao (uma nao-clareza, obrigada, didier) tao potente. eles falam muito, falam muito bonito, mas dizem muito pouco. uma lingua para filosofos e poetas.
minha compreensao do frances avanca. ja vejo filme e assisto o noticiario, entendendo quase tudo. foda eh a lingua desenrolar de vez e eu fazer o biquinho pra pronunciar direito o frances sem antes raciocinar em ingles, minha tabua de salvacao neste pais de gauleses orgulhosos.
depois de amanha, vou percorrer as entranhas deste pais de novo, em direcao a toulouse onde minha querida eddie sera operada. na volta para meu curso de frances, pego um TGV, um trem rapidissimo, pela primeira vez na vida. primeira classe, madam, que tava barato. e na sequencia pego um eurostar debaixo do canal da mancha pra londres, pra renovar o carimbo no passaporte e ganhar mais tres meses aqui neste gelo. (vanessa, meus chas!!!)
sigo agora na expectativa de receber meu primeiro conto traduzido em frances para estabelecer novos contatos profissionais. novos desafios vao se abrir para mim, eu que a partir do final de dezembro comeco a morar numa casa no 20eme arrondissement, enquanto espero a vero descolar um ape maior e melhor, pela mairie de paris. aproveitarei pra atacar mais o velib e continuar neste estranho e bem-vindo processo de emagrecimento que vem acontecendo comigo desde que cheguei aqui.
como, bebo horrores, e emagreco. muito. que maravilha. pode ser o frio. pode ser a emocao com o novo futuro. pode ser a sensacao de liberdade. pode ser o fato de amar. pode ser a distancia de neuroses antigas. pode ser o rompimento com a terra-mater. pode ser o processo de individuacao que deriva disso tudo, que me poe em risco, mas tambem me deixa muito bem. colocar-se em risco as vezes faz bem.
vi o primeiro jogo de rugby da minha vida, pela tv, na casa do jerome, com toda a familia rosa reunida (faltando soh o serge e a querida virginie). achei bonito, chic, fashion, muito sexy e extremamente gay, aquele monte de homem gostoso se pegando muito. nao entendi nadica de nada das regras, mas torci muito pela franca.
e tive medo da danca ritual aborigene que os jogadores da nova zelandia fazem antes de comecar o match. credo.
vi um dos melhores show da minha vida num bar-galpao no norte de paris – a lydia lunch. amo. minha idola, como amo. encontrei la com a virginie, a beatriz, foi tudo uma delicia. no dia seguinte a vero finalizou seu trabalho com o novo filme da virginie (mutantes: feminismo e post-porno punk). almocamos num japones todo mundo (inclusive eddie et pepa, as bouledougas francesas mais lindas do mundo), rimos muito.aguardem. a lydia ta la no filme.
eh de gritar.
e a virginie botou meu nome nos creditos finais, como agradecimento. pelo que, deus meu? fiquei tao orgulhosa que nem consegui falar.
e essa historia maluca da vida da gente, que a gente vai fazendo, vai vivendo, vai propondo, vai sofrendo, vai inventando… e o frio…
bom, o frio a gente aguenta.

vou entupir voce de chá, muié!
comments:
“os franceses dao risada e me dizem que eu ainda nao vi nada” => nao, voce ainda nao viu nada. calorzinho agora, só em maio ou junho. pelo menos por aqui. já faz uns tres dias que nao vejo o sol, quando ele vem é só para dizer oi e claro que nao aquece nada. sim, amanhece as 7 ou 8 da manha e escurece as 4 da tarde! eu AMO o frio, mas a escuridao realmente é um problema para o humor. já percebi que tudo parece pior entre dezembro e maio.
“como, bebo horrores, e emagreco” => os franceses sao mestres nisso, né? aqui isso nao funciona, nao. é comer e engordar, simples assim
“quebrar o leiometro do aquecedor como forma de protesto pra nao pagar mais” => hahahaha, que coisa mais francesa! protesto, protesto e mais protesto!
“colocar-se em risco as vezes faz bem” => eu sei!
“achei (rugby) bonito, chic, fashion, muito sexy e extremamente gay” => nao acho nada disso, nao. acho violento e por isso mesmo adoro! acho que é o jeito que o meu inconsciente achou de colocar a violencia que todos nós temos que represar para fora hehehehehe. também acho os jogadores gigantes, isso me assusta e a sensacao de medo me atrai muito.
finalmente: mande este povo PARAR DE FUMAR!